05 agosto 2007

09-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 8, SuperStar.

Como sempre, acordar não fácil. Depois de uma boa caneca de cerveja e das muitas atividades do dia anterior, eu estava quebrado. Acordei tomei um bom e não muito demorado banho com aqueles malditos chuveirinhos europeus. Ah!

Hoje seria um dia diferente. Hoje iríamos visitar uma gráfica russa. Entrei, no ônibus, distribuindo "Bom Dias" e sorrisos e logo reparei que algumas adolescentes haviam "reservado" um lugar para mim. Passei por elas e sentei-me no último banco, aquele central e agora teria quatro acentos livres (dois de cada lado). Vi que elas olhavam para mim com uma cara de "Ah... você deveria ter sentado aqui" e, independente disso, ás convidei para se sentarem ao meu lado. Elas se entre olharam e correram para o fundo do ônibus, comigo. Por sorte, sobrou um lugar, que seria logo ocupado por justamente quem me interessara no dia anterior. Não sei se realmente me importo com o que pensam sobre o parágrafo acima, mas digo isso: Alguém aí lembra quando eram mais jovens e aquele primo (a) mais velho (a) vinha em casa e ele (a) era a pessoa mais "cool" do recinto? A pessoa que estava rindo e brincando com a gente. É na idade que nossos pais já não olham mais quando gritamos "Paaaaiêêêê... Manhêêê, olha o que eu sei fazer", mas a única pessoa que olhava é o tal primo(a). É aquele ele entre o mundo adulto divertido e uma despreocupação infantil. Eu, aqui, sou o primo brasileiro, que não fala russo e que desperta curiosidade. Agora eu entendo como meu tio, que infelizmente faleceu há alguns meses, ou como outro amigo da família se sentiam.

Tatyana, ou Tânya, sentou no acento livre. Trazia aquele sorriso infantil, aqueles cabelos castanhos claros e aqueles grandes olhos azuis, que é típico das mulheres russas. Sentou olhou em volta e retribuiu meu sorriso. O sorriso dela foi lindo, mas o meu era de um babão que não sabia muito bem o que dizer. A viagem seria longa, pelo menos uma hora e meia e não demorou em conversamos sobre gostos em comum e etc. Tânya tem 23 anos e acabou de se formar em psicologia, o que eleva meu grau de interesse, ou receio (Acho que psicólogos são meio loucos). Ela, como eu, adora viajar. Já foi para China, Japão, Mongólia, Nepal e acredita que a próxima viagem será para o Brasil e depois para o Peru (Meio hippie, não?). Lá pelas tantas descobri que ela odeia as duas coisas que devem, sempre, ser odiadas: Relógios de pulso e guarda-chuvas. A comunicação, em inglês, é precária, mas nem me importo. Seguimos conversando até chegarmos à gráfica.

O treinamento, hoje, foi pesado e mais formal. As "crianças" aprenderam o que é um Business Plan e eu, que já não entendia, absolutamente, nada e agora é, ainda, pior. Tirei algumas fotos do passeio pela gráfica e como eles se divertiram em ver como uma guilhotina trabalha. Mal sabem eles que amanhã verão tudo em funcionamento e com suas fotos. Fomos almoçar em um restaurante que fica, a mais ou menos, uns 15 minutos, a pé, daqui. Estamos em uma pequena cidade próxima a São Petersburgo e aqui a beleza esta nas antigas construções castigadas pelo tempo. A impressão que tenho é que as casas foram construídas e deixadas à ação do tempo. Caminhamos por calçadas sem cimento até chegarmos à zona comercial da cidade. Andávamos em pequenos grupos, ora falando em inglês e ora em alemão. O restaurante era pequeno e romântico demais para a fome e ansiedade adolescente. Sentei-me na mesa com meu novo melhor amigo, Danich (Danila), Irina (Funcionária russa). Danich descobriu meu gosto por Beatles e muitas vezes olha para mim e começa cantar alguma música deles na esperança que eu cante junto. Até agora, sempre, com sucesso. Percebi que é muito comum tomar uma sopa antes das refeições e chá durante e depois. Já tomei várias sopas, mas a campeã, até agora é a de Borscha, que tomei no primeiro dia. Os garotos querem falar inglês, mas nem sempre consegue ou tem coragem. Voltávamos do almoço quando uma menina, timidamente, chegou a mim e disse que queria falar inglês, para praticar, mas que tem vergonha. Voltamos conversando sobre Harry Potter, Senhor dos Anéis, Timbaland e alguns de seus Hobbys, como ler filosofia, tocar piano e escrever poemas. Poxa, vida, e ela só têm 14 anos.

Voltamos para o cliente e mais algumas palestras foram feitas, enquanto eu passeava entre minhas fotos. Não demorou muito até que voltássemos para o Hotel, onde os garotos continuaram a discussão sobre o Business Plan para a empresa criada. Foi tudo em russo e não pude contribuir muito e o segundo lugar obtido foi resultado de um trabalho em equipe fantástico. Até quem era quietão, no grupo, estava trabalhando ativamente. Uma beleza. Comemoramos o segundo lugar como se fosse o primeiro. Quando voltamos para o quarto e compartilhamos nossos pensamentos do dia, era impossível não notar aquela alegria toda no quarto. Eles riam, se olhavam, falavam e riam novamente. Estavam desapontados pela colocação no dia anterior, mas estávamos, agora, no caminho certo. Fiquei muito feliz de eles gostarem de minha presença no grupo. Segundo eles: "É muito bom ter um brasileiro no grupo" ou "Quero ir para o Brasil, porque sei que os brasileiros têm censo de humor". Sim, queridos, humor até demais e nossos políticos também.

Quem vier a São Petersburgo nunca se deve esquecer de trazer uma simples coisa: Repelente. A noite anterior foi um perrengue só. Saímos (Instrutores), compramos repelente, café da manhã, cerveja e etc. Voltamos para o hotel e entre discussões sobre o dia, escolhemos algumas fotos para colocarmos no calendário 2008 sobre o evento. Quando voltei para meu quarto reparei alguns post-its na porta. Alguns dos jovens colocaram mensagens de boa noite nas portas dos instrutores. Parece-me que a Rússia e Brasil não são tão distantes assim.

Mais uma noite que dormirei muito pouco.

Paká






08-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 7, ele ainda existe.

Demorei a dormir e a noite foi de curtos cochilos, mas dormi bem. Acordei por volta das 5 da manhã, por uma mensagem em meu celular de uma amiga no Brasil. Voltei a dormir e por alguns minutos não perco o horário.

O combinado era sairmos do seminário e irmos tomar café no hotel em que passaremos a semana. Tudo correu bem e aqui encontramos mais alguns adolescente e outros instrutores. Ao todo são dezesseis adolescentes, dez meninas e seis meninos, e 12 instrutores. O número pode parecer alto, mas todo cuidado é necessário - Ainda mais porque sei o perigo que eu fui nessa idade. Ahhhh! Que saudades dos meus 15 anos e conseguia "me virar" com uma mesada de R$ 30,00. Bom, essa é outra história.

Tomamos café com todos. Reencontrei minha amiga, agora de volta da China, e estava meio perdido no meio de tantos jovens russos. As atividades da manhã, ou de hoje, eram focadas em Team Building. Ou seja, muitas atividades em grupo, como pequenas gincanas e papos em grupo. Não é todo mundo aqui que fala inglês, mas a maioria entende e isso já é um começo. Quando falei que a linguagem é um dos pilares da comunicação, eu estava certo. Como não posso confiar em meus ouvidos, sou obrigado a ler toda e qualquer expressão corporal/facial que tiver a sorte de ver. Infelizmente não sou mestre nisso e acho que é impossível entender tudo o que se passa. Sinto-me como Bill Murray no filme Lost in Translation. Quanto presto atenção sei o que esta acontecendo e tudo que passa a minha volta e, além disso, como não reparar na instrutora russa, que tem uma Nikon (máquina fotográfica)?

Depois dessas atividades, os jovens foram divididos em grupo e cada grupo estava encarregado de montar uma empresa. Na verdade apenas o nome da empresa, um slogan e um segmento do mercado gráfico que atuaria (embalagem, editorial e etc). Eu também entrei em um grupo, composto de quatro adolescentes (três garotas e um garoto) e três instrutores, comigo. Fomos para um quarto e fizemos um "Brainstorm" até chegarmos a um nome e slogan. Enquanto prestava atenção em tudo, sugeri algo que levou a escolha do nome da gráfica dos futuros gráficos. O nome escolhido foi "COLOURIZE" e sugeri o slogan: We colour your rise. É o melhor que um não-marketeiro consegue fazer. Os grupos foram reunidos, as empresas foram apresentadas e chegamos em quarto lugar, de quatro grupos. Senti certo desapontamento nos adolescentes, mas uma boa conversa sobre isso, que tivemos no final do dia, já apagou isso deles e até, aparentemente, os motivou.

O dia seguiu com diversas atividades em grupo, como: Danças, bate-papos, almoço, jantar e etc. A penúltima atividade foi a dança e todos esperavam um "show" de dança do brasileiro aqui. Como sei que "Hips don't lie", não fiz feio e me diverti com todo mundo. Os dois jovens não quiseram participar e adivinhem quais? Sim, os dois garotos do trem, mas eles já estão se mais colegas com todos os demais e, inclusive, dividem o quarto comigo e com outro funcionário russo.

Reunimo-nos, os membros do grupo, no quarto das garotas. A última atividade do dia consistia em acender uma vela e falar algumas palavras sobre o dia. Infelizmente só posso escrever o que disse e foi algo sobre a importância de estar aqui e como todos precisamos de um tempo sozinhos para pensar em nós mesmos e nos conhecermos. Falei que gosto de usar o momento em que me deito até o momento de dormir para pensar sobre o dia. Quando nos conhecemos somos pessoas melhores. Embora meu corpo estivesse cansado, minha cabeça não estava. Fui para o meu quarto e comecei a escrever. Sergey (funcionário da empresa que trabalho e que divido o quarto) disse que alguns funcionários iriam até a filial de São Petersburgo para trabalhar um pouco. Eu disse que ficaria por aqui e depois dormiria. Cinco minutos depois da saída de Sergey, Ekaterina me liga e diz: "Vamos? Vamos trabalhar e depois vamos tomar uma cerveja". Claro, que topei! Afinal, acho que não estava tão cansado assim.

São Petersburgo é linda. Completamente diferente de Moscou. É um Rio de Janeiro. Milhares de turistas passeiam pelas ruas admirando a arquitetura, igrejas, barcos, pontes, a fonte cantante (aquele lance que tem no lago do Ibirapuera) e etc. Pouco sei da cidade e sua história, mas como permanecerei por aqui alguns dias mais...

O escritório fica em frente de um, dos muitos, canais que existem em São Petersburgo. Trabalhar aqui deve ser muito gostoso. A vista dos barquinhos e a beleza do prédio já devem contar como adicionais trabalhistas. A vida não é só feita de diversão e fomos comprar o café da manhã das "crianças" para a manhã seguinte. Nada em especial, mas já eram mais de meia-noite e nem havia percebido. Esse céu verão, com sol até às 23 horas, engana. Compras feitas e fomos celebrar o primeiro dia treinamento. Paramos em um café-bar. A cidade fervia, percebi que havia muitos transeuntes vestidos como marinheiros e descobri que hoje era o dia da Marinha, por aqui. Não pude evitar imagina-los cantando sucessos do Village People em algum karaokê. Tomamos uma cerveja e fizemos o agradecimento da vela, que consiste de, também, passar a vela e agradecer, mas dessa vez seriam só alguns funcionários. De algum modo causei boa impressão aqui: mesmo sem falar uma boa frase, em russo. Voltamos para o Hotel por volta das 02h30, estou cansado, mas muito feliz com a experiência.


Cansado, mas ainda vivo.

Paká

07-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 6, a partida.

Acordei às 11 horas com o despertador tocando. Não estava bêbado e nem de ressaca. Acordei, fiz minhas malas, tomei um demorado banho, fiz check-out, almocei no hotel e esperei no lobby até ser apanhado por Pavla, a estagiária da República Tcheca. Enquanto esperava ouvi música. Ultimamente estou ouvindo muito à MPB. Gil, Caetano, Chico e os novos Baianos. Pergunto-me como não conheci Gil, antes, na fase Expresso 2222. A música Oriente é uma das melhores que já ouvi. Toda vez que ouço me arrepio.

Oriente

Se oriente, rapaz 
Pela constelação do Cruzeiro do Sul 
Se oriente, rapaz 
Pela constatação de que a aranha 
Vive do que tece 
Vê se não se esquece 
Pela simples razão de que tudo merece 
Consideração

Considere, rapaz 
A possibilidade de ir pro Japão 
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão 
Pela curiosidade de ver 
Onde o sol se esconde 
Vê se compreende 
Pela simples razão de que tudo depende 
De determinação

Determine, rapaz 
Onde vai ser seu curso de pós-graduação 
Se oriente, rapaz 
Pela rotação da Terra em torno do Sol 
Sorridente, rapaz 
Pela continuidade do sonho de Adão

Porém a frase que mais gosto esta na música Back in Bahia, também, da mesma fase: Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar. Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá.

Pavlá chegou mais cedo e fomos para a estação de trem. Tomamos um café e ficamos batendo papo por quase 2 horas enquanto esperávamos o restante do grupo. Vou participar do 1. Summer Camp. Durará uma semana e o objetivo é mostrar á jovens, filhos de gráficos, entre 13 e 16 anos o que seus pais fazem no trabalho. É um investimento que terá resultados á longo prazo e é uma ótima experiência para mim. Pegamos o trem, eu, três funcionários e mais nove jovens. Logo no trem percebi que, talvez, teremos problemas com dois garotos. Não dei muita bola. O trem é muito confortável, a passagem custa em torno de US$ 70,00, mas que valem a pena, se você considerar que são 6 horas de viagem. A vista é única, pois existem muitas vilas russas pelo caminho. Não consigo descrever e não tirei fotos. Chegamos a São Petersburgo e um ônibus fretado nos levaria até um seminário católico, que passaríamos a primeira noite. Infelizmente não havia vagas no hotel que será realizado o Summer Camp. Tudo bem! Chegamos, nos acomodamos e fomos tomar um chá com sanduíche, antes de dormirmos. Propositalmente sentei do lado dos dois garotos. Eles não querem conversar comigo e não falam inglês. Eles se conhecem e nem precisam falar para se entenderem. Pavla teve um pequeno desentendimento, mas devagar chegaremos lá. Para eles, eu não entendo o que passa, mas acho que em pouco tempo quebrarei essa atitude rebelde adolescente, dos dois. Ainda temos uma semana pela frente.

Já é tarde, vou dormir.

Paká




06-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07


Dia 5, que sono.

Tirei o dia para relaxar. Acho que despertador tocou às 9 horas, mas ignorei-o e levantei lá pelas 11 horas. Acordei, bem atordoado, e se não estivesse em um lugar diferente, possivelmente dormiria mais um pouco, me assuntei e tratei de passear.

Conforme planejado fui até o museu da II guerra mundial. Cheguei lá por volta das 13 horas. Para se chegar até o museu o visitante, que vem do metro, percorre todo um longo trajeto pela praça da vitória. A vista é interessante e o percurso ainda mais. Olhando de longe é possível ver o obelisco, o museu, fontes, escadaria (parecida com aquela dos filmes Rocky Balboa) e etc. A praça deve ter uns 700 metros de comprimento. As fontes ficam a direita e logo na parte central percebi pequenos marcadores, em pedra, dos anos que a guerra durou, 1941 á 1945. Embaixo do obelisco pode-se ver uma gigante estátua de São Jorge matando o dragão, porém o mais interessante são as muitas noivas que tiram fotos por lá. Fotos na fonte, no dragão, na escadeira, com o museu ao fundo, com bouquet, sem bouquet, de véu, de grinalda ... e as vezes uma, ou outra, foto com o novo marido. Os vestidos de noiva são bem variados, inclusive algumas versões bem curtas, que bem que poderiam ser utilizados em qualquer clipe de cantoras pop dos anos oitenta e se não me engano já vi a Cindy Lauper usando algo assim. O museu estava vazio e isso ajudou muito. A visita é bem organizada e começa na parte de baixo do museu pelo pavilhão da lembrança e sofrimento. Lá existe uma estatua de um anjo segurando um soldado, pelos braços, mas para chegar lá tive que passar por um grande corredor com 2.600.000 correntes de colares penduradas no teto, simbolizando as lágrimas que rolaram pelas vítimas da guerra. Existem alguns dioramas que ajudam entender os campos de batalha. No andar superior estão objetos como armas, medalhas, uniformes e etc, alemães e dos aliados, em exposição.

Lembram que eu falei que já manjava tudo do metro, pois bem. Descobri que o metro de Moscou é um senhor que merece respeito. Quase me perdi hoje, mas deu tudo certo. Além da beleza, do metro, em suas paredes em mármore, lustres e etc, me deparei com músicos tocando música clássica em violinos. Em uma das paradas havia sete violinistas e um outro tocando um baixo. Até aí, não é nada demais, mas a acústica é perfeita. O tempo passava e eu ouvia música. Estava tocado pela música e pela quantidade de pessoas lendo livros no metro quando me deparei com uma cena nojenta. Um cara estava urinando em uma das colunas do metro, assim, na maior e com gente passando para lá e para cá. Bom, a necessidade é uma coisa, mas pera lá.

Voltei para o Hotel, meio de mau-humor, jantei uma pizza no restaurante do hotel e nem tentei falar em russo. Restringi-me ao máximo da educação. Jantei, deixei uma gorjeta e fui dormir um pouco, já que hoje sairia para conhecer a noite de Moscou.

Puta-que-o-paril, Moscou é foda!

Combinei com Nikolai de encontrá-lo às 10 horas em uma estação no centro de Moscou. Milagrosamente os telefones celulares funcionam muito bem por aqui, até com o trem em movimento. Quer falar? Sem problemas. Nikolai me disse que iríamos encontrar seu sobrinho, depois iríamos fazer um esquenta em um barzinho e depois para a “melhor balada” de Moscou. No dia anterior Nikolai já havia me informado que nessas baladas não se paga para entrar, mas existe um rigoroso "face control" e um "dress code". Sendo assim, estava bem vestido, como sempre e lindo e maravilhoso, como sempre. Encontramos seu sobrinho, que não fala inglês, e paramos em um café próximo á praça vermelha. Acho que saímos de lá bêbados. Bebemos duas tequilas, duas cervejas e duas sambucas. Sambuca, aparentemente, é um drink latino. Para fazer uma sambuca você precisará de: Dois Copos; Vodka com anis; alguns grãos de café, canudo, guardanapo, isqueiro e coragem. No primeiro copo, coloque a Vodka com anis, a seu gosto, e os grãos de café. Ateie fogo, gire o copo algumas vezes. Em seguida, derrame o conteúdo, em chamas, no segundo copo, abafe o segundo copo com o primeiro copo. Com os pulmões vazios, beba a vodka, espere alguns segundos e inale, com o canudo, o ar do primeiro copo, mas não se esqueça de manter o copo de ponta-cabeça. Pronto, assim que se prepara e bebe uma Sambuca. Repita a operação para um maior grau de embriaguez. Saímos do café e fomos, andando, até a praça vermelha, pois Pascha, o sobrinho de Nikolai, disse que a Praça Vermelha, à noite, é outro lugar. No caminho, passamos pelo teatro fundado por Stanislavsky e valeu a pena. Como já estávamos todos, levemente, embriagados, fui informado que deveria fazer na entrada da praça vermelha (atrás do museu) o ritual de retorno a Moscou. Existe um ponto dentro, de um círculo, no chão. Tive que pegar uma moeda, fazer um pedido e jogar para trás. Nem lembro o que pedi, mas acho que desejei voltar para Moscou novamente. Entrei na praça vermelha exatamente à meia-noite, pois os sinos anunciavam. Atravessamos a praça, em direção a catedral e eguimos até um pequeno mercado e compramos champagne barato e redbull para re-calibrar antes da balada. Chegamos a balada e no "face control", passamos tranquilamente e voilá, balada, aqui estamos. "Úrru, orra meu, a balada tava bombando, o som tava irado, as minas tavam muito lôcas a balada era insana, umas puta gostosa dançando ao som do DJ - Insano, mano". Nem lembro o que falei, me arranjei com uma russa, peguei, peguei o telefone dela, mas mal sabe ela que já era minha última noite. Lá pelas tantas, Nikolai, muito bêbado me puxa pelo braço e diz "John, lets go". Pegamos um táxi, eu, ele e Pascha e fomos para outra balada. Nem entramos, pois Nikolai não tinha condições e eu teria que acordar às 11 horas, fazer check-out e pegar o trem para São Petersburgo. Antes de ir embora, ainda conversei com uma outra russa, que cismou que eu não era brasileiro, mas sim Georgian, bom tanto faz. Hora de ir e como sempre, Nikolai parou o primeiro carro que passava, disse meu destino e acertou o preço. Pronto, estava a caminho do hotel.

Meu motorista era russo e falava pouco inglês. Era jovem e tinha um bom carro. Pelo que entendi, ele, também, saía de alguma balada. Fomos parados por policias duas vezes e em ambas às vezes olharam o porta-malas, cada parada não levava mais do que 2 minutos. Cheguei ao hotel, subi para meu quarto e essa foi minha última noite em Moscou, pelo menos, dessa vez.

Beba com moderação.

Paká.



29 julho 2007

05-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 4, ainda é difícil de entender.

Acordei, por volta das 9 horas, com uma vontade de continuar a dormir, como isso fosse alguma novidade, mas acordei mesmo assim. Hoje fui visitar o mausoléu de Lenin, fui de metro e até insisto em dizer que agora vou para qualquer lugar, em Moscou, de metro. Já entendi o esquema de cores e transferências e com  meu esquema de contar estações, já que é impossível entender a próxima estação nos avisos do maquinista, tem funcionado muito bem. Reparei na quantidade de câmeras que existem nas estações e nos funcionários, em sua aparência de aposentados, observando todo movimento na estação. É impossível não pensar que isso é um resquício comunista, como indicara George Orwell, em 1984 (O livro, não o ano.)

Cheguei á praça Vermelha, a fila, para visitar Lenin, já havia alcançado a praça Aleksander (uns 500 metros) e fui para o final da fila. Assim que cheguei, alguém se aproximou e perguntou se eu falava italiano, alemão ou francês. Antes que pudesse responder, ele foi informando, em inglês, que eu poderia furar a fila por um precinho, disse que era guia e que a espera na fila era de, pelo menos, duas horas. Agradeci e disse que não. Não vim de um lugar que furamos filas o tempo todo, apesar de adorá-las, para furar fila na Rússia. Iria aproveitar a espera forçada para tirar algumas fotos dos soldados, da praça e turistas. Mais tarde o mesmo guia voltou oferecendo, novamente, seus serviços e disse que podia organizar um grupo e que o preço cairia significativamente. Sem pestanejar, recusei. Quando estava quase chegando ao início, ou fim, da fila uma guia, bem mal-educada passou empurrando e seguida por um grupo de aproximadamente umas 20 pessoas igualmente mal-educadas. Todos chineses. Será que estamos trocando seis por meia-dúzia nessa coisa de potência mundial?

Existe um extremo sistema de segurança para visitar, á toque de caixa, a (eterna?) morada de Lenin. Máquinas fotográficas, celulares com câmeras embutidas e uma série de outros itens são terminantemente proibidos de passar pelo mausoléu. Tive que deixar tudo na chapelaria, por um preço justo. Imaginava que seria um tumulto daqueles passar pelo mausoléu, mas achei bem tranqüilo. Soldados indicam o caminho com gestos rápidos, entre pedidos de silêncio e olhadas ríspidas - Parecem robôs. O corpo de Lenin é exibido no nível inferior da entrada (e da praça vermelha) e depois do horário de visitação é baixado para uma câmara frigorífica que garante a mesma frescura por mais de 50 anos. A cada 18 meses o corpo é enviado para universidade de Moscou, onde recebe mais uma demão de cera e um banho de produtos químicos. O mausoléu é escuro, frio e tem um cheiro, pode ser psicológico, de morte. Por sorte, pude observar muito bem os restos mortais. Enquanto descia a primeira escada, percebi que uma velha senhora russa precisaria de um braço para descer as escadas e fui ajudá-la, sendo assim pude fazer, a passos idosos, todo o percurso. Dizem que Lenin esta encolhendo, mas a iluminação é baixa e a parte iluminada e descoberta só me permitiu enxergar suas mãos e cabeça. É estranho acreditar que aquilo é um corpo real e talvez não seja. Não duvido dos avanços médicos, mas o corpo parece o de uma boneca de plástico. É um corpo pálido que se custa a creditar autenticidade. A coisa mais estranha é a orelha, que esta cheia de cera (hohoho) e parece de plástico. Vou escrever um e-mail para o Ombudsman do mausoléu e pedir para que arrumem aquela orelha ou uma orelha melhor. Atrás do mausoléu encontra-se o tumulo de outros ex-lideres soviéticos, inclusive Stálin que logo após a sua morte foi mantido ao lado de Lênin, mas depois que seus crimes foram revelados em uma convenção do partido único comunista, foi removido e enterrado atrás do mausoléu. Dizem que o corpo de Stálin foi removido porque a mãe de alguém importante foi visitada, em sonho, por Lênin, e este disse que não queria dividir seu mausoléu com Stálin. Eu gosto mais da segunda versão.

Saí do mausoléu e peguei o metro para o museu da II Guerra Mundial, onde me encontraria com Nikolai. Infelizmente o museu estava fechado, pois sempre fecha na última quinta-feira de cada mês, para manutenção. Gostaria de agradecer o guia Lonely Planet por sua nona mancada. Encontrei Nikolai e fomos para o museu de arte da Rússia, onde se encontram as principais obras produzidas por artistas russos. Só me falta conhecimento para descrever o que vi. Existem quadros, esculturas bacanas e como em todos os museus, gente fazendo cara de sabichão, mas sem saber nada.

Fomos almoçar, novamente, em um restaurante Geórgio, mas dessa vez a sobremesa seria o papo político com Nikolai.

Quantos aí já tentaram entender o que é socialismo ou comunismo? Eu já e achava que sabia, mas quantos aí já tentaram entender como era a vida em um regime comunista? Eu já e achava que já sabia. Como é usar a mesma roupa que seus vizinhos tem? Usar a mesma TV, que todo mundo tem? Comer da mesma marca, que todos os parentes comem? E a lista vai ad infinitum. Tudo era produzido e propriedade do Estado. Os donos dos supermercados, por exemplo, recebiam mais pela função que desempenhavam, mas todo o lucro obtido ia para o Estado. Enquanto isso, quem não queria trabalhar, também levava um troco no final do mês. Nikolay disse que era tudo muito barato. Disse que todos eram iguais e, obviamente, o dinheiro não era tão importante. Podiam viajar, mas apenas dentro da URSS ou para outros países satélites. Devido à guerra fria, todo o lucro do estado ia para o desenvolvimento de material bélico. Imagine só, um povo que é capaz de produzir mísseis intercontinentais ou enviar pessoas ao espaço, mas não tem idéia do que é um videogame. A ignorância é, realmente, uma benção. Independentemente de sistema político, é interessante observar que se não fossem as comparações entre estes sistemas, possivelmente a URSS existiria até hoje. E o que temos agora? O melhor sistema, ou estamos em uma fase antes de voltarmos no tempo e começarmos tudo de novo? Darwin talvez pudesse ser aplicado, mas acho que os tempos imperiais estão de volta.

Estou procurando músicas russas. Já sei cantar Kalinka, mas quero algo mais. Sabem aquelas canções russas com acordeom e um ritmo de polca (É a única associação que consegui fazer), pois bem, sempre soube que aquilo era música russa e imaginava que eram músicas que se ouviam em festinhas e churrascadas, mas nada, aquele estilo musical é o rap deles. As letras falam sobre crimes, cadeias e a vida no crime, em geral. Esse estilo musical se chama rúski chanson, ou algo assim. Certo, mano?

Voltei para o hotel e pedi informação, no lobby, sobre como lavar minhas roupas, descobri que deveria falar com a moça responsável pelo meu andar e que ela lavaria, mas chegar a esta  informação tomou uns 10 minutos e diversas consultas ao guia de conversação. Foi extremamente válido e divertido. Só espero que minhas roupas voltem limpas. Assim que entrei no quarto o telefone tocou, era a Ekaterina, da China, querendo saber do meu dia e informar sobre a ida á São Petersburgo. Falamos por mais de uma hora, sobre trabalho, vida e viagens. Ela adora dizer que eu sou jovem e que certas coisas virão, para mim, com algum tempo e experiência, mas mal sabe ela.

Paká



04-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 3, pouco sono e muitos sonhos.

Dormi pouco esta noite. Fui dormir tarde e acordei por volta das 4 h da manhã, sem sono. Pensei que estava ficando doente e acho que estava, mas não iria me deixar abater. Fiquei olhando pela janela por um bom tempo e o tempo bom que fizera nestes dois últimos dias foram embora. Ao longe reparava em alguns raios, de perto a rua molhada e em cima algumas nuvens, que já não molhavam mais nada. Tentei voltar a dormir e não consegui. Assim, fiquei assistindo TV e lendo sobre cultura e antropologia, em um livro do Laraia (como somos íntimos).

Ontem combinei, durante o jantar de negócios, que seria apanhado por uma colega russa de trabalho, a Irina, que me levaria ao trabalho. Ela havia me dito que enviaria uma mensagem por celular informando quando me pegaria, pedi que ela me ligasse, mas ela re-confirmou o envio da mensagem. Não insisti. Tomei café da manhã e até às 9 h nenhuma mensagem. Preferi voltar a dormir, prometendo a mim que ligaria para o escritório mais tarde e assim que adormeci o telefone toca e sou convocado, por Irina, a descer, pois ela me aguardava na recepção e me levaria ao escritório. Banho rápido e vamos lá.

O escritório fica em um prédio agradável, também no norte de Moscou, fica próximo a um parque e uma lagoa (como se fizessem um prédio de escritórios dentro do Ibirapuera). A empresa é locatária de dois andares dentro da universidade gráfica de Moscou e divide o show room de nossos equipamentos entre demonstrações para clientes e estudantes apaixonados na arte de colocar  tinha em papel em equipamentos monstruosos. Fico imaginando quando eles substituirão essa paixão, pela paixão de colocar muita tinta, em muitos papéis, em pouco tempo e por muito dinheiro.

Cumprimento os funcionários, enquanto me acomodo. Tento falar algumas palavras em russo, mas logo volto para o inglês e percebo que será um dia de trabalho solitário, para mim, no trabalho, já que apenas duas, das seis pessoas falam inglês a ponto de estabelecer uma duradoura conversa. Tudo bem, eu vim aqui para "trabalhar" e a conversa pode esperar. Em pouco tempo, acompanhado de meu guia de conversação, me faria de palhaço ou de viajante bobinho e me comunicaria com os locais. A cada dia fico mais abismado em como todo é passível de comunicação. A comunicação vai muito além da palavra, embora a palavra seja um dos principais pilares da cultura, a comunicação envolve tudo. Por sorte, agradeço por ter puxado um pouco do sangue do meu avô, que tem um carisma que já me irritou, na minha infância, mas que hoje desperta curiosidade e uma boa inveja. Tudo bom, papos feitos, gelo quebrado, fui checar meus emails. Nada demais, alguns emails curiosos de amigos, outros profissionais ( a maioria) e alguns SPAMs vendendo VIAGRA pelo menor preço (O marketing da Pfizer é, mesmo, muito bom. Já estão anunciando para um futuro público potencial impotente). Respondi meus emails e comecei a explicação do projeto que fazemos no Brasil e começou na Australia para a funcionária russa. Não foi uma tarefa fácil, tive que explicar bem devagar e desenhar um pouco, mas com paciência e algumas consultas ao dicionário, deu tudo certo. Fui almoçar com duas colegas, Pavla, a estagiária Tcheca e Irina, e elas não paravam de falar, em russo. Foi engraçado estar do mesmo lado dos colegas que vão ao Brasil e não falam português e nós, brasileiros, as vezes por costume e/ou por sacanagem, só falamos em português. Voltei do almoço e trabalhei nos dados do cliente russo, terminei, apresentei e há pouca coisa que possa ser feita com isso, porém chegaremos lá. Mais tarde fui informado que daria uma volta por Moscou com Nikolai e Irina (a funcionária) e depois jantaríamos em algum lugar. Hora certa, me despedi e saímos.

Moscou é uma cidade radial. Existem alguns anéis que circundam a cidade, algo como um rodo anel urbano que parece uma 23 de maio, a avenida paulistana que liga tudo. Já reparam que a 23 de maio esta em, pelo menos, uns 50% de todos os caminhos que fazemos em São Paulo? Quando digo 23 de maio, ignoro os demais nomes que ela tem, como Rubem Berta e Washington Luis, pois para mim a 23 de maio começa no extremo sul de São Paulo, Interlagos e vai até a Zona Norte. Esqueci o bairro. Enfim, Moscou é uma cidade radial. Segundo os Moscowitz, Moscou tem a forma de um relógio e os pontos cardeais foram, informalmente, substituídos pelas horas em um relógio. Quem vai para o Norte diz que vai para às 12, quem vai para o Sul diz que vai para às 6 e por aí vai.

Tivemos que dar a volta por Moscou inteira até chegar na universidade de Moscou. Em alguns momentos, quando ignorava os anúncios em russo, tinha plena certeza que estava em São Paulo, devido ao trânsito infernal. Chegamos á universidade e tirei muitas fotos e acho que ficaram boas. Passeamos mais um pouco e Nikolai queria, de qualquer forma, me mostrar um bairro e lá vamos nós ao novo bairro comercial de Moscou, que é basicamente o site de construção de uma série de prédios comerciais e, entre eles, o mais alto prédio da Europa. Estranhei a vontade que Nikolai tinha em me mostrar aquilo, mas aquilo é um grande cartão de visitas para uma economia em crescimento, queiram os críticos ou não. Depois de tanto trânsito estávamos com fome e Nikolai nos levou em um restaurante Georgio (da República de Geórgia, no Cáucaso), fiquei empolgado com a decisão, pois tenho uma amiga de lá e vai ser legal contar para ela que comi sua comida nativa. Quando fui informado que comeríamos um típico churrasco Cáucaso, tive que falar das churrascarias no Brasil, mas quando provei as diversas carnes no prato em que nos deram. Agradeci por aquilo. Pois é, amigos: Pensava que poderíamos colocar as churrascarias na lista de bens, único, tipo-exportação, mas os "caras" já chegaram lá. Comemos muito, como em uma churrascaria e esqueci da minha possível doença.

Foi um bom e tranqüilo dia.

Paká.

25 julho 2007

03-Diário Não-ficcional Rússia - Julho/07

Dia 2, mas um dia.

Tive alguns sonhos ruins, essa noite. Eram sonhos curtos, mas com finais espantosos. Algo como: curtas de terror, mas sobrevivi a todos eles e acordava assustado. O último susto foi às 8 horas da manhã e o sol batia no meu rosto anunciando mais um dia de verão russo.

Tomei banho e corri para tomar o café da manhã, provido pelo glorioso hotel em que estou hospedado. Se não tivesse vontade de aprender o mínimo que seja de russo, acho que ficaria irritado em não conseguir me comunicar, em inglês, com os funcionários do hotel. Que bobagem. Sabe, meu russo tem melhorado a cada dia, se ficasse aqui mais três anos... No lobby, enquanto tentava descobrir a estação de metro mais próxima, fui indagado, em inglês, por uma senhora russa, que tinha um cartaz com o nome da empresa para qual trabalho, "Você trabalha aqui", enquanto apontava para o cartaz. Respondi que sim. Infelizmente esqueci o nome da senhora, mas lembro que é algo como Lúria. Ela será minha guia pelas próximas horas. Nosso motorista é russo e se chama Slava e tão logo é informado de minha nacionalidade ele me mostra um jornal e diz "Wagner Love, Harashón!". Não lembro o que respondi. Tentei lembrar de algum nome dos milhares de esportistas russos que ganharam medalhas nas diversas olimpíadas, mas nada. Hoje nosso roteiro é tranqüilo. Passearíamos por algumas ruas enquanto a guia me contava milhares de histórias sobre Moscou, entre elas à razão, ou umas das possíveis razões, para o nome Moscou. Disse-me que Moscou deriva da junção de duas palavras: Musgo e Sapo. Disse que aquela era uma região muito úmida, achei engraçado e porque não?

Passamos pelo museu da II guerra mundial, que provavelmente visitarei nos próximos dias. Depois fizemos uma parada na faculdade de Moscou e no mirante da cidade. Infelizmente todo conhecimento que adquiri durante a viagem não será colocado aqui, mas espero que sirva de convite para quem quiser conhecer a Rússia. Durante as paradas, tentava descobrir como era a vida nos tempos de URSS. Ela diz que pouco mudou e desviou o assunto, mas senti um pouco de nostalgia nos olhos dela. A próxima parada foi em um cemitério onde a nata intelectual, política, artística e etc russa esta enterrada. O primeiro tumulo a ser visitado ainda esta fresco (Que trocadilho bacana, não?) e é do ex-presidente Russo e embaixador da Vodka, o meu amigo: Boris Yeltsin. Continuamos o passeio pelo cemitério e pelas histórias da Rússia, como a de ministros, aviadores, músicos, bailarinas, militares, homenagem a mortos em guerras e a do ex-presidente russo: Nikita Khrushschev, que, em minha opinião merece lugar entre os maiores devido a sua postura na crise dos mísseis, em Cuba. Para quem não conhece a história, durante a Guerra Fria, Kruschschev enviou mísseis para Cuba afim de criar um enclave russo nas Américas, mas claro que o presidente americano, John F. Kennedy, embora os EUA tivessem diversos enclaves na Europa, não poderia permitir. Essa crise, por muito pouco, poderia esquentar a Guerra Fria. Durante as negociações, Khrushchev escreve (telex, em código) ao presidente americano: "Você e eu não deveríamos puxar os finais das cordas nas quais você deu um nó de guerra, porque quanto mais forte puxarmos, mais apertado esse nó se tornará. E virá o tempo em que esse nó será tão apertado que quem os atou não será mais capaz de desatá-los...porque você compreende as forças que nossos 2 países possuem". Porém a diplomacia permaneceu e as palavras abaixo, de Khrushschev, deram por fim o fim na crise dos mísseis de Cuba, ou a crise da Bahia dos Porcos:

“Estimado Senhor Presidente:
Eu recebi sua mensagem de 27 de outubro de 1962. Eu expresso minha satisfação e gratidão pelo senso de proporção e compreensão da responsabilidade nascida por sua presente preservação de paz no mundo..."

God save the Internet.

Continuamos o passeio e fomos ao Kremlin. O Kremlin é o começo da Rússia e seu o fim. Ali a história começou e é feita, mas não é sempre assim. A sede do governo russo fica ali, mas o impressionante são as igrejas e o quanto a religião foi e é poderosa. Igrejas com domos folhados a ouro e como Czares russos utilizaram esse instrumento. "A religião é o ópio do povo", como outro ministro soviético declarou, mas não o vejo assim. A religião é necessária. Ela consegue explicar o que não conseguimos entender e preenche os vazios que a ciência e nosso cérebro não têm condição, ainda, de entender. Fato interessante: nas igrejas católicas ortodoxas, além de uma arquitetura e pintura particular, percebi a ausência de bancos e de espaço para os possíveis fiéis. Minha guia disse que antigamente as pessoas ficavam de pé e haviam dois tronos; um para a mulher do czar e o outro para o chefe da igreja. Mas não é que Ivan, o terrível, (como era conhecido o Czar Ivan IV) mandou construir um trono para ele também e lembrar a igreja que ele era mais do que a igreja? Antigamente, isso antes de Príncipe Charles e Princesa Diana, eu pensava que os reis não podiam se casar mais de uma vez, mas não foi a coroa britânica a lançar essa moda. Na verdade, novamente, Ivan, o terrível, foi casado sete vezes. Ivan não tinha muita sorte. Toda vez que ele estava engatando um casamento, infelizmente, sua esposa morria envenenada ou era enviada para um convento. Muito triste.

A última igreja que visitei foi a do arcanjo Miguel (Acho que essa é a tradução correta). Lá, por sorte, ouvi uma apresentação de cântico gregoriano. Sempre achei que isso era música chata, mas depois gostei muito.  Minha guia, enquanto assistia a apresentação, foi atrás de um guia de Moscou, em português, para mim. Não sei se isso estava incluso no preço, mas ganhei o tal guia de presente e ainda ganhei umas moedas da URSS que, segundo ela, não se acha em todo lugar. Ótimo presente para um internacionalista.

Querendo ou não, a Rússia já entendeu o lance do capitalismo. Vi alguns mendigos pedindo dinheiro aqui e ali e quando perguntei sobre o assunto a única resposta que tive foi: Coisas do capitalismo. Existem sócias de Lênin, por questões históricas e a de Putin, por popularidade, andando pela praça vermelha. Os senhores são requisitados, a todo tempo, a posarem em fotos com turistas e russos e ainda ganhar um troquinho.

Mais tarde dispensei minha guia e resolvi ir almoçar sozinho e depois voltaria para o hotel, de metro, sozinho e contrariando os pedidos de minha host russa voltei para o hotel de metro e sem problema algum. Não entendo nada o que é anunciado nos falantes, mas o mesmo acontece aí em São Paulo. Quem já não ouviu no metro a voz metálica que anuncia "Estação São kasdk..." e os passageiros perguntam: O que?

Voltando a falar sobre as futuras exportações brasileiras, esqueci de incluir na lista as nossas novelas, bom, não nossas; deles. Estava zapeando por alguns canais da TV russa e deparo com uns rostos conhecidos. Eram atores brasileiros, representando em uma novela brasileira, falando em português e dublado, grossamente (como naquelas traduções do Discovery Channel), para Russo. Infelizmente não reconheci a novela, mas no intervalo foi anunciado, em português, mas com um bom sotaque russo, outra novela brasileira e dessa vez entendi que era a “Belíssima”. Mais tarde, durante o jantar com uns colegas descobri que as novelas brasileiras fazem muito sucesso por aqui e muitas crianças são batizadas com nomes brasileiros, mas até agora não conheci nenhum João, mas a esperança...bom, já sabem.

Por volta das 18 h fui apanhado por duas funcionárias da filial russa [da empresa que trabalho] e fomos a um restaurante Uzbeque (?) não muito longe do meu hotel. Uma funcionária será responsável por análises de produção de clientes, algo como faço no Brasil, e a outra é uma estagiária da República Tcheca, que ficará aqui por seis meses. Falamos sobre trivialidades, as presenteei com algumas gravuras do Brasil e logo mais, eu e a estagiária, entraríamos em uma discussão sobre cultura e globalização. Ela é Tcheca e diz que quer ter e criar seus filhos na Rep. Tcheca e eu sou brasileiro (e não desisto nunca) e disse que quero criar meus filhos no Brasil, mas pensando no global. Ela quer manter as tradições, que foram passadas a ela, e repassa-las a seus filhos. Eu entendo essa vontade e por mais que me sinta Brasileiro, sei que vivemos em um mundo novo (se levarmos em consideração que a modernização tecnológica ocorrida nas últimas décadas, internet, criou uma disjunção entre tempo e espaço) e pensar global me ajuda entender que há diferenças no mundo e ponto. Infelizmente não é possível escrever muito sobre esse assunto, sem entrar em muitos outros, como filosofia, globalização, imperialismo cultural, antropologia e etc. Só posso dizer que foi uma animada conversa e inspiradora. Provavelmente, quando me aposentar e ir morar em Praga, terei muito que conversar com as jovens, Tchecas,  aposentadas - Não necessariamente nesta ordem.

Eu, que adoro uma conversa pseudo-política-história-social, não pude evitar e aproveitando que um russo se juntou a nós, logo perguntei sobre a URSS e como os Tchecos se sentiam em relação ao terem sido um satélite soviético durante a URSS. Pude perceber que a nova geração não tem problemas com a Rússia, embora os pais da estagiária não quisessem que ela estagiasse na Rússia. Em um resumo grosseiro. Hoje em dia o "problema" dos jovens Tchecos é com a Alemanha. Desde 2004 a República Tcheca faz parte da União Européia e embora seja um Estado menor, dentro de um contexto maior europeu, eles crêem que tem muito menos autonomia que antes. Entendem que não tinham outra opção a não ser entrar na comunidade, mas não gostam dessa entrada brusca de capital alemão (Europeu?) na República Tcheca. Talvez essa fosse à motivação da conversa anterior, mas é impossível seguir muito tempo nesses papos, quando faz um calor danado e já estou na minha terceira, ou quarta, caneca de cerveja.

Paká