29 novembro 2007

Nunca se sabe...

Semana passada morreu o irmão do meu avô. Fui ao velório e fiquei chateado por ver meu avô e demais familiares tristes, porém aliviados (Meu tio-avô sofreu um bocado nesses últimos meses).

Não sou muito fã de velórios, mas o “bom” de velórios é que acabamos por re-encontrar amigos e conhecidos que não vemos há anos e este não foi diferente. Já havia visto o corpo do falecido e dado minhas condolências aos familiares mais próximos, fui apresentado a alguns membros da família que, provavelmente, só os vi quando nasci e, talvez, em algum outro velório e me despedi. No caminho para o carro, re-encontrei um dos melhores amigos da minha primeira infância. Ele conversava com outros amigos que, também, não via há muito tempo. Começamos a colocar o papo em dia e descobrimos que não nos víamos desde o velório de um outro finado amigo: Há quase 10 anos.

Muito papo e, Deus me perdoe por blasfêmia, muita risada. Despedi-me de meu amigo dizendo apenas “Até o próximo velório e só espero que não seja o seu ou o meu”.

Triste, mas verdade.

Fui para casa e fiquei pensando nesse lance de morte e funeral. Tudo isso é triste, sim, mas triste para quem fica, pois quem vai não pode reclamar muito. Talvez celebrar a morte deva ser o melhor jeito de comemorar a vida bem vivida. Talvez reconhecer a morte seja uma grande motivação para olhar para o lado bom da vida e, afinal, como diz a música a última risada será sobre você.

Sei que isso não me pertence e como não há outro meio, venho por meio desta externalizar meus desejos fúnebres no melhor momento possível: Em vida.
São poucos pontos e ainda não finalizados que gostariam que fossem levados em consideração, em caso de... expiração.

Ontem uma cigana me falou que irei morrer no ano de 2078. Pedi mais detalhes sobre a data e como, mas esses serviços de previsão nunca serão confiáveis, visto as más experiências que tive com metereologistas.

De qualquer forma, aí vão meus desejos recentes:

1) Quero ser cremado imediatamente os órgãos passíveis de doação sejam retirados do meu corpo.
2) As cinzas ficarão expostas entre de duas fotos minhas, sorrindo, de 60cmx30cm cada uma, em localização a ser definida.
3) Haverá música de fundo, mas nada de música gospel e/ou lounge (Lounge é muito chato). Pode rolar um MPB/rock e Los Hermanos serão sempre uma boa pedida.
4) Choro não será permitido, a não ser que seja resultado de algum impacto físico ou de alguma piada/frase lúdica discursada durante o evento.
5) Haverá papéis e canetas disponíveis a todos os participantes onde poderão escrever seus dados de contato como telefone, email, skype, fofokut ou outro novo meio de comunicação inventado até minha morte e, neste papel, haverá apenas uma frase com o seguinte dizer: Prometo lhe rever antes do próximo velório!
6) Discursa quem quer e fala o que quiser: Cagadas e roubadas são bem-vindas, mas prefiro contos alegres.
7) Minhas cinzas serão jogadas em um lugar a ser definido por quem se achar no direito de decidir, ou qualquer outra possibilidade.
8) Caso optem por enterrar ou guardar minhas cinzas, gostaria que os dizeres do epitáfio fossem "Morreu heroicamente salvando orfãos de um terrível incêndio" (Ok, essa eu copiei dos “Tenenbaums”).

E é assim e como dizia o poeta “Quem já passou por essa vida e não viveu, Pode ser mais mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.”



22 novembro 2007

Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos


Tive a oportunidade de realizar uma resenha sobre um filme, texto ou livro para a matéria de Antropologia Cultural. Depois de muito procurar, e enrolar, algo que pudesse, também, me identificar, me deparei com o livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman. No início folhei o livro e creio, até, que o capítulo indicado á ser lido e resenhado era outro, mas preferi ler e discutir o capítulo que fala sobre amor, o sentimento, e não Amor esse deus que tudo nos dá e tudo nos tira. Ou será que o sentimento tem a mesma missão?

O capítulo, Apaixonar-se e desapaixonar-se tenta explicar como o amor, ou a falta dele, afeta e rege nosso querer, nosso agir, nosso pensar e, porque não, nosso sofrer. O autor discute diversas teorias e pensamentos que foram sugeridos ao tema através dos tempos. Creio que o que prendeu, inicialmente, minha atenção sobre o tema e como ele é discutido, foi a citação que: "Quando se esguia sobre o gelo fino, a salvação esta na velocidade. Quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar desforra na quantidade". Essa citação faz pensar na profundidade de um único sentimento em distinção a troca de uma coisa que pode ser tão plena por pequenas gotas de paixões passageiras.

A não ser que tais paixões passageiras sejam amor. Sim, amor pelas paixões passageiras, porque não? Não iniciarei uma discussão sobre o que deve ser objeto do amor, ou até mesmo o amor de um pai por seus filhos ou, compreenda como quiser, o amor de Deus por sua criação, mas o objetivo proposto pelo autor é debater quais são as justificativas, racionais, ou não, que levam a este sentimento.

Logo no inicio do capítulo o autor comenta que nem o amor e nem a morte pode se atingir duas vezes, ou como não esperamos por ele. Sim, isso é verdade. Quando uma, ou ambas as coisas, juntam ou separadas (E para um amante, o amor não correspondido não é a mesma coisa que a morte? Creio que o jovem Werther, personagem de Goethe, o saberia dizer) nos atingem nunca sabemos ao certo o que deve ser feito e cremos que através da experiência adquirida durante os anos de vida, ou da experiência de outro, poderá nos valer em algo. Acredito que nunca saberemos plenamente como lidar com tais eventos, porém a preparação nunca é dispensável.

Outro ponto de vista é a discussão sobre a quantidade de amores que vivemos. Não deveria o amor ser único e durar para sempre a partir do momento em que ele nasce? Últimos romances, talvez seja isso a reposta para as diversas vezes que nos apaixonamos e depois nos desapaixonamos. De qualquer forma é que o amor é belo, no ditado mais piegas, e vem para gerar o belo.

Devemos aprender a amar, como diz um filósofo citado no texto, e termos a humildade de nos encontramos no outro e junto com isso reconhecer a importância da coragem em admitir que o outro é necessário e que todas as indagações sobre o passado, presente e futuro se encontram todas no receptor do nosso amor. Kafka tem razão: "Nunca saberemos o que é amar".

Desejar o objeto de admiração não é amor. Desejo é somente um modo de vingar-se de uma afronta ou de evitar a humilhação. Possuir algo para ter status sobre algo não é o mesmo que aceitar algo como ele é. Amor é a vontade de se cuidar, estar sempre a serviço do outro e não pedir nada em troca. Nada!


Visões românticas...


Os impulsos são transitórios, porém são sinceros. O que há de mais belo de não saber aonde o caminho termina e mesmo assim tentar trilha-lo? Porém devemos nos policiar de sempre seguir nossos impulsos? Talvez os impulsos nos tirem a responsabilidade, mas caso nos levem a caminhos novos e que estejamos bem, a responsabilidade ficaria em segundo plano. Pois não conheço uma simples alma que não tenha vontade de buscar sua felicidade.

Se relacionar é um investimento. Sim, relaciona-se com um porque um estará presente quando ficarmos sozinhas e desamparados do mundo. Ceder é a palavra da vez, diz um. E que tal se comunicar? Saber o que te agrada e o que me agrada, saber o que te incomoda e o que não suporto. Caso não ficássemos cegos pelo amor, conseguiríamos perceber tais momentos e diríamos o que realmente acontece e a sinceridade iria conduzir o resto do relacionamento, mas a verdade só aparece quando não concordamos com o outro, ou o outro conosco, e aí as discussões começam e a toda a racionalidade se perde.

Se tivéssemos relacionamentos sinceros de bolso, como sugerido. Como conseguiremos entrar plenamente em um relacionamento e atingir seu auge sabendo que caso ele mude e não seja mais o mesmo, o mesmo deverá ser esquecido? E não se esqueça de nunca perder a razão quando estiver em um relacionamento de bolso, pois bem, não é, as vezes, isso o que queremos que aconteça quando nos deixamos levar?

Quase no final do capítulo, assumo que vi a luz no fim do túnel e novamente assumo que é a luz no fim do meu túnel. Porque não se relacionar e permitir um algo mais com alguém que temos afinidade? Sim, isso me parece o correto. E claro, que agora esta fácil, só basta encontrar alguém com as mesmas afinidades, gostos e pensamentos. Complicado. Acho que o melhor é procurar ser completo, o meu completo, como outro filósofo disse e se encontrar outro completo, bom, a afinidade aparecerá. Pois como não dizem por aí: "Os opostos se distraem, os dispostos se atraem".

20 novembro 2007

Pode vir quente, que estou fervendo

Eu só queria uma cerveja e acabei por descobrir que o mundo estava acabando. Droga, será que ainda há tempo para uma caipirinha?
Tenho que admitir, eu não sou o tipo de cara que lê muito. Ler é um hábito muito chato e as notícias na TV são sempre de alguém que matou alguém, alguém que roubou alguém ou de alguém que esta ferrando alguém, em maior ou menor escala ou com mais ou menos envolvidos. Eu sei que o jogo é assim e minha única preocupação é não ser ferrado e desejar mal a quase a ninguém. Claro que nem sempre isso é possível: Que se danem todos os ex da minha nega!
Não sei a quanto tempo começou, mas de algum tempo para cá sempre ouço a mesma reza. Entro no táxi depois de uma cervejinha e o taxista, que antes falava do tempo, desembesta a falar sobre um tal de “aquecimento global”. Eu, respondo com um simples, “pois é” e emendo com um “E o Corinthians, meu? Será que vai ser rebaixado?” Para que estressar? Sei lá que porra é “aquecimento  global”, por mim isso deve ser coisa da Globo tentando recuperar a audiência perdida para a Record.
Ultimamente está cada vez mais difícil bater aquela bolinha dominical. Culpo a idade e o calor e sei que já não tenho os meus 20 anos. Lá na repartição o ar-condicionado quebrou, mas já foi feito uma licitação para comprar um maior e melhor.   Se é melhor, eu não sei, mas é maior e bem mais caro do que o último que compramos e se me lembro bem compramos há alguns meses. Tanto faz, o dinheiro não sai do meu bolso, mesmo. Se é para mamar, vamos mamar até o fim. Que fim? Do mandato ou o fim do mundo?
Eu gosto de tomar minha cervejinha no final do dia com os colegas. As vezes a patroa enche o saco, mas geralmente ela sai do trabalho e se enfia no shopping e arruma o cabelo daqui, pinta as unhas ali e o diabo. Ás vezes chego em casa, depois de uma cerveja a mais, e nem reconheço a mulher.  De qualquer forma é bom chegar em casa e assistir a novela das 8 com a sósia da Juliana Paes (Gostosa), embora em proporções levemente maiores  (Se a patroa ler isso, eu estou frito). Enfim, estava tomando uma cervejinha e não é que me aparece um panfleteiro, lá no bar, e distribui um panfleto sobre o tal do “aquecimento global” ? Putz grila, a Globo não perde tempo mesmo.
Eu até pensei em amassar o tal panfleto e mandar na rua, mesmo, mas outro colega já havia feito isso e só faltou ser esmurrado pelo panfleteiro. Eu sou da paz e guardei o panfletinho no bolso da calça, continuei minha cervejinha e o papo, enquanto olhava todas aquelas gostosinhas que passavam para lá e para cá. Deus salve as gostosinhas!
Já em casa, me esparramei no sofá só que tinha alguma coisa me incomodando: era o tal panfleto. Li com um certo descaso inicial, mas logo constatei que, puta que o paril, o mundo esta acabando. Como assim? Dizem que há um tal relógio do fim do mundo e ele foi adiantado. A temperatura do mundo está subindo e vai continuar subindo não sei quanto até não sei quando. Algumas cidades costeiras serão cobertas pelo mar. Tudo bem que o Rio não fará falta, mas e todas aquela mulherada? E a globeleza? Isso não pode acontecer! Será que estão fazendo alguma coisa á respeito disso? Li alguma coisa de protocolo de Kioto, mas os Estados Unidos são contra. Emissão do que?  Puta que o paril... Puta que o paril...  Hey, fui enganado! O panfleto diz que o stress, do bom, vai começar em 100 anos. 100 anos? Ah! E eu quase iria começar a andar de bicicleta pr’o trabalho. Em 100 anos eu já vou estar morto, mesmo e, com a graça do nosso bom senhor Jesus, no céu.
Tenho outras coisas mais importantes e imediatas para me preocupar. É, tenho sim.  Para mim, o fim do mundo é saber que a Britney e a Lindsay foram presas. O bom mesmo é saber que o meu imposto de renda será restituído na próxima quinta-feira (Com a graça de Deus). Além do mais as Spice Girls estão em turnê e descobriram mais petróleo no Brasil.
Dizem que os quatro cavaleiros do apocalípse estão vindo, mas e daí? Tem tanta coisa boa nesse país que até eles chegarem aqui ainda tenho tempo para mais uma capirinha, uma bolinha, um sambinha...  

21 outubro 2007

Setenta-e-um



A edição de outubro de 2007 da Revista Rolling Stone, traz o resultado de uma eleição para definir os 100 maiores discos brasileiros, por sorte esta matéria caiu como uma luva para meu trabalho de conclusão de curso, aqui designado simplesmente TCC. Meu TCC discute sobre a influência da música, em especial dos artistas exilados, na população brasileira durante os 21 anos, 1964 á 1985, da ditadura militar brasilera.
Os 100 maiores discos foram escolhidos por um júri de 60 “estudiosos, produtores e jornalistas” que poderiam escolher os 20 discos, sem nenhum critério específico ou ordem de preferência. A lista contém produções artísticas musicais desde 1950, com Noel Rosa e Aracy de Almeida, até 2003, com Los Hermanos – São mais de 5 décadas de história. Através dessa compilação montei uma pequena lista que deu algumas respostas e forneceu algumas novas perguntas.
Para minha alegria, identifiquei que 51 discos, dos 100 maiores, foram produzidos durante a década de 1970, auge dos “Anos de Chumbo” da ditadura militar. Os “Anos de Chumbo” foi designado para os anos onde a repressão militar foi mais intensidade. Identifiquei, também, que dois artistas ocupavam o primeiro lugar de tais produções, Tim Maia e Caetano Veloso, ambos com 4 álbuns cada e seguidos de perto por Gilberto Gil com 3 álbuns, isso sem contar com as parcerias. Chico Buarque divide a terceira posição, com outros 8 artistas, incluindo Raul Seixas. Porque o foco nestes artistas? Todos, com excessão de Tim Maia,foram exilados, sem entrar no mérito de terem tido um exílio obrigatório ou espontâneo, se é que existiram exílios espontâneos.
Apenas númerar os álbuns não seria prova de qualidade, mas apenas de quantidade, por isso atribui pontos, sendo que o primeiro colocado (Novos Baianos, com “Acabou Chorare” recebeu 300 pontos, o segundo colocado (Tropicália, com Tropicália ou Panis et Circensis) recebeu 297 pontos e prossegui subtraindo 3 pontos até chegar ao centésimo colocado (Egberto Gismonti, com Circense), que recebeu 3 pontos. Desta forma creio que pude quantificar a importância do álbum segundo sua qualificação.
Refiz novamente meus cálculos, com o sistema de pontuação, e confirmei o status de qualidade da década de 1970. Constatei que 55% dos pontos íam para está década, porém com algumas mudanças no ranking dos artistas. Tim Maia permaneceu em primeiro lugar, o segundo lugar foi dividido entre Gilberto Gil e Jorge Ben, o terceiro lugar ficou para o homem que entende a alma feminina, Chico Buarque e Caetano Veloso ficou com o quarto lugar. Nada mal, não?
Os militares ocuparam o poder no Brasil por 21 anos e foi interessante constatar que mais de 2/3 dos melhores álbuns foram feitos durante esse período. Isso não necessariamente concluí minha teoria da influência da música durante a ditadura, mas coloca mais questões na discussão do mercado de música brasileiro. Porque o último grande disco foi feito há 4 anos? Porque a grande concentração de álbuns durante um período marcado pela intolerância e a censura? Ainda encontramos qualidade no “mainstream” musical ou apenas artístas que fazem dinheiro? A música não pode ser instrumento de voz da população? A música não pode unir uma nação?
Talvez seja muito cedo para responder estas questões, mas não custa lembrar que durante um sombrio período de nossa recente história houve uma explosão de criatividade e ousadia que culminou na produção de 71 discos que deveriam fazer parte da disco-grafia de qualquer amante da boa música.
A relação completa dos 100 maiores discos da música brasileira pode ser encontrado no site da revista Rolling Stone.

11 outubro 2007

an.si.e.da.de

an.si.e.da.desf (lat anxietate) 1 Aflição, angústia, ânsia. 2 Psicol Atitude emotiva concernente ao futuro e que se caracteriza por alternativas de medo e esperança; medo vago adquirido especialmente por generalização de estímulos. 3 Desejo ardente ou veemente. 4 Impaciência, insofrimento, sofreguidão.


Aeroporto lotado, milhares de ombros lado-a-lado á espera dos passageiros de mais um vôo que, com sorte, não atrasará.

- É sempre assim nessas vésperas de feriado. – Exclama para uma bela galega, ao seu lado, tentando puxar papo.

- É, lotado. – Responde sem nenhuma empolgação.
Percebe que se quiser engatar em um papo com a galega terá que se esforçar mais, porém, tinha pouco tempo e resolveu ir com tudo.

- É... – Hesita.

- Você não é daqui, é? Esperando o namorado? – Pergunta sem pudor.

- Não, não sou e estou esperando meu irmão que vai passar o feriado comigo. – Responde, agora com certa educação.

- Feriado em São Paulo? Legal...
Sente uma facada em suas costas e pensa em melhores modos de continuar a conversa, sem parecer mais um “paulistano-ô-lôco-meu”.

- É... São Paulo é uma boa cidade. Sempre tem alguma coisa acontecendo. Acho até que os museus ficarão abertos e, talvez, hajam algumas boas peças para assistir ou baladas, sei lá.

- Não, não. Vamos p’ra praia. Uma amiga da faculdade tem uma casa na praia e vamos para lá. E você, quem você esta esperando ?

- Bom, eu... eu... estou esperando minha... minha irmã. Minha irmã e os filhos. Eles vão passar uma temporada na casa dos meus pais. Bom, nossos pais. Ela se separou do marido... ou o marido se separou dela. Não sei.

- Ah! Que triste, mas ela esta bem, certo ? – Pergunta a galega.

- Acho que sim. Bom, escuta, qual é seu nome? Estamos conversando e nem sei seu nome.

- Fernanda e o seu ?

- Nossa, que coincidência. Fernando, meu nome é Fernando.

- Tu tá de brincadeira ?

- Não, de maneira alguma. Prazer, Fernando. Olha – Disfarça olhando para o chão -  posso pedir uma coisa?

- Humnnnn, o quê?

- Seu telefone! Você esta aqui em São Paulo e, sei lá, poderíamos marcar de fazer alguma coisa.
Partira para o tudo. Se ela não desse o telefone, tudo bem. Já ouvira não de outras vezes e sua habilidade de se adaptar o extinguira de qualquer apego á derrota, até então.

- Meu irmão chegou. Ele é aquele ali. Esta vendo? – Interrompe o assunto.

- Ah, sim. Legal.

- Tenho que ir. Bom te conhecer, nos vemos por aí. – Diz, Fernanda, indicando que a tentativa de Fernando não vai dar em nada.

Fernando ainda pensa em argumentar, mas prefere fazer o que faz de melhor. Desde a infância era capaz de simular choro, suor, arrepios e o que mais quisesse. Seu rosto dizia uma coisa, sua boca dizia outra e sua percepção do mundo era como a de todos deveriam ser: Sua. Não era mal, mas não tinha grandes desejos ideológicos de mudar o mundo para um lugar melhor. Queria realizar suas vontades e só, mas havia esquecido isso há alguns anos.

- Ah! Adeus – Despede-se com cara de quem perdeu tudo.
Fernanda o olha, fica com dó e pensa em todas as coisas que se arrependeu por não ter feito e decide dar seu número de celular à Fernando.

- Olha aqui. Devo voltar da praia lá pela quarta-feira. Você tem como anotar meu número ?

Ponto para Fernando.

- Claro, pode falar que anoto no celular. – Diz enquanto enfia a mão no bolso.
Números declamados e anotados. Despedem-se e Fernando permanece na luta dos ombros e pescoços. Enquanto isso uma revolução interna começara. Fernando sente uma certa dor no peito e tem a boca seca. Não sabe bem o que é isso. Faz esportes desde que se entende por gente e dificilmente fica doente.
Ao longe vê uma mulher e outras duas crianças. É por elas que Fernando aguarda e gesticulando revela sua posição para os recém-chegados. As crianças correm em sua direção gritando “Pai-ê, Pai-ê!”. Fernando aguarda e sorri. É inútil tentar enganar o nobre leitor que a mulher, com as crianças, não é sua esposa.  Fernando é casado e tem um casal de filhos. Mariana, 5 anos, e Vítor de 4 anos. Sua esposa vem em sua direção, beija-o dizendo que sentiu saudades.

- Eu também. Eu também. – Diz Fernando.

- Podemos ir ? Não estou me sentindo muito bem. Até estou com a boca seca e com frio.  – Diz sem comentar sobre a dor no peito e, agora, a sensação de falta de ar.

- Sim, vamos. Crianças, vamos indo, podemos matar a saudade em casa. – Diz a mãe e esposa.


Adepto do tudo ao mesmo tempo agora, Fernando preferiu reprimir seus desejos e vontades a muito tempo. Agora era casado e seguia o caminho padrão que fora desenhado por outros. Não lhe faltava vontade própria, mas cansado de nunca encontrar a “resposta”  decidiu lutar pelo o que era esperado. Casou-se com sua primeira namorada do colégio. Foi um belo casamento pago pelo pai da noiva. Logo vieram as cobranças por crianças e Mariana veio ao mundo sendo recebida com todo amor de seus pais e demais familiares. Tinha tudo o que precisava, tinha uma família, uma casa, dois carros e dois cachorros. Era uma vida tranquila. Fernando queria mais, queria os frios na barriga que outrora tivera. Tinha medo, como todos, mas queria mais e mais.

No carro, Fernando é o motorista e deixa o carro morrer na primeira tentativa. Sua família brinca com ele por isso, mas ele apenas sorri amarelo. Dirige, mas com uma enorme dificuldade. Dirige, mas não consegue se concentrar no trânsito e na conversa familiar ao mesmo tempo. Sua dor no peito e falta de ar o apertam e o confundem. Já estavam na avenida principal quando, talvez pelo sol, Fernando não percebe o farol vermelho para ele e sua família. Acelera e apenas para quando seu carro atinge um caminhão cegonha que cruzara seu caminho.

Ninguém sobrevive.

O enterro aconteceu em uma quarta-feira chuvosa. Muitos amigos, conhecidos e colegas estão presentes, mas não há alvoroço. Nas pequenas rodas de amigos a lembrança mais forte era da alegria e disposição que Fernando encarava tudo.
Seu lema era repetido por seus conhecidos.

Não era o momento para esta discussão, mas alguns conhecidos comentavam que tal lema deveria estar no epitáfio da família ou, ao menos, na de Fernando.

...

Passados alguns anos um gótico bêbado perâmbula por algum cemitério da cidade. Entre um gole de vinho e outro encontra uma bela, porém simples, lápide. Ele para, olha, lê o epitáfio, ri e continua seu caminho.

Em uma simples fonte e acima do nome de um tal de Fernando, para quem quiser ver,  lê-se: Relaxa !

12 agosto 2007

01 - Diário Secreto Alemão - Agosto/2007

Gruess Gott!

Estou no Alemanha :-)

A última vez que eu foi aqui fui em 2004. Eu gosta muito de Alemanha. Aqui eu me sinta segura. Eu anda com Ipod, com celular e com dinheiro e ninguém meche comiga. No Brasil não é assim... Infelizmente, ainda, não é assim. Vote em João para Presidente. Não tenho rabo preso com ninguém e vamos fazer um Brasil melhor. Vamos importar o que há de bom pelo mundo e vamos exportar o que de bom temos em casa, pelo preço justo.

O vôo da Rússia para München foi tranqüilo, mas como já disse: Estou cada vez mais medroso. Para variar sentei-me ao lado de uma senhora que a cada balançada, segurava forte na mão de seu marido. Ainda bem que o medo de avião não supera a vontade de conhecer outros lugares, lugares diferentes. Hoje li que sempre usamos nossa cultura como ponto de referência para interpretar outras culturas (etnocentrismo). Quando chegamos a um lugar completamente novo a metáfora utilizada é de como alguém, nascido cego, enxergaria o mundo pela primeira vez. Certamente estaria confuso e todas aquelas cores e formas demorariam algum tempo para fazer algum sentido. Esse é o trabalho de um antropólogo e não sou isso. Sou apenas um perdido curioso.

Como já disse, acima, em meu sotaque tupi-germânico, estou de volta á Alemanha. Dê Abril á Agosto de 2004 tive o prazer de morar por aqui. Até a pouco tempo dividiria minha vida em duas partes: Antes e depois de morar na Alemanha. Bom, não necessariamente Alemanha ou Europa. Morar fora de casa, em outro mundo, por assim dizer, abre nossa cabeça para a beleza das pequenas coisas e, muitas vezes, principalmente das pequenas coisas que não fizemos quando podíamos. A vida não acabou, mas começou, então faça o que tem que ser feito,  agora. Projete-se para amanha e minta para os nãos da vida. Não sei as tuas respostas, não sei as minas respostas e o que, ainda, me move é minha curiosidade do que ainda não vivi.

É muito bom voltar para a Alemanha. Aqui, de alguma forma, entendo o que o povo fala. Sei ler o que, algumas, palavras que vejo e sei ir e vir, na medida do possível, sem restrições. Estou colocando meu escasso alemão à prova e pretendo continuar assim. Cheguei ao aeroporto de Munique, liguei para casa, passei pela imigração e comprei um dicionário inglês-alemão (estou enferrujado). Logo que comprei o tíquete de trem, em alemão, corri para a plataforma. Esqueci muita coisa, esqueci que, às vezes, a porta do metro não se abre e é necessário apertar um botão. Não é preguiça alemã, mas imagina no inverno, aquele frio danado, e a porta se abrindo para ninguém entrar. Ninguém, não. O frio.

Mesmo sabendo ir e vir, isso não significa que não cometa erros. Pois é, depois que peguei o trem para a estação principal, teria que pegar um S-bahn (Metro/bonde) para o Albergue. Tinha todas as coordenadas, mas peguei o S-bahn para o lado errado. Tudo bem, tudo bem. Isso só me tomou alguns minutos e quando cheguei á estação correta, percebi que estava chovendo. Parei, pensei e enfrentei a chuva por apenas cinco minutos, até chegar ao Albergue. É sempre bom relembrar que só existem três coisas que não gosto: Relógios de pulso e guarda-chuvas.

O albergue alemão é muito organizado. Tratei de me comunicar em alemão e tudo tranqüilo. O quarto é no primeiro andar e tem seis camas, dividas em três beliches. Estou na cama inferior do beliche mais próximo á porta. Temos duas pias e um armário/locker para deixar tudo. Já havia empurrado tudo para o locker quando notei que não tinha roupa de cama e toalha. E lá vou eu novamente para a recepção. Agarrei roupa de cama e tentei comprar água em uma dessas vending machines, mas só tinha água com gás. Pronto, lembrei uma birra que tenho com a Alemanha. Perguntei a recepcionista aonde poderia comprar água sem gás e ela responde: Pode beber da torneira. Lembrei: isso é Alemanha. Há três anos o pai de um amigo alemão, aqui na Alemanha, leu uma nota de jornal, para mim, que fora feita uma pesquisa (dessas de qualidade) com diversas marcas de água mineral e com a água da torneira. O resultado foi que a água da torneira, por aqui, é mais saudável e limpa que a água mineral.

Eu não errei. Quando disse que existem três coisas que não gosto e só disse duas. A terceira coisa é o elemento X. X é coisa que eu não gosto em um dado momento. Pode ser em um ano, um dia, um segundo e etc. Nesse exato momento eu odeio a saudade que sinto de você.

Wiederschreiben!

07 agosto 2007

17 - Mandamentos na Rússia

Dia, tanto faz.

Estou de saída para o aeroporto e compilei os meus 10 mandamentos do viajante na Rússia. Espero que seja útil para os futuros desbravadores e, também, espero que sirvam para mostrar, a quem aqui vier, que a Rússia é muito mais do que imaginamos ou vemos de casa.

- Aprenderás algumas expressões, em Russo.
    Não é todo mundo, na Rússia, que fala inglês. Mas se falar algumas poucas expressões, em russo, aumentarás sua possibilidade de seres bem-vindo.

- Sorrirás ao alheio.
    Sua cara é seu cartão de visita. Um sorriso franco pode gerar a empatia necessária para iniciar qualquer bate-papo

- Andarás de óculos escuros, quando possível.
    É melhor para observar, sem chamar a atenção. Vale para tudo, inclusive para as belas russas que andam provocantemente soltas por essas ruas.

- Andarás com a fotocópia de seu passaporte.
    Infelizmente alguns policiais podem tentar molestar turistas. Ande com uma fotocópia de seu passaporte, onde se possa ver a foto e o visto.

- Estarás atento á teus bens pessoais.
    Essa é simples, não. Evite andar com muito dinheiro na carteira e tenha sempre uma quantia reserva na sinta turista (Aquela que anda debaixo da calça ou camisa).

- Esqueçerás tua dieta.
    Vir à Rússia e ter restrições alimentares é deixar uma parte da experiência desconhecida. Coma as delícias Russas, Ucrânianianas e Cáucasas, em geral.

- Tirarás muitas fotos e/ou filmarás muitas horas.
    Muitas e muitas. Não há como evitar.

- Beberás Vodka.
    Os Russos são famosos por muitas coisas e a Vodka é uma delas. Russos, bebem Vodka pura e em pequenos copos, como tequila, e podem cheirar um pão preto depois, de acordo com a tradição local.

- Jamais beberás dessa água.
    A não ser que seja fervida por, pelo menos, 10 minutos ou seja mineral. A bactéria Giardia Lamblia pode causar dolorosas cólicas estomacais, diarréia e gases. Os sintomas podem aparecer semanas depois do contato e o tratamento pode durar anos.

- Comprarás Matrioskas.
    Não são umas gracinhas aquelas bonequinas russas de madeira? Algumas pessoas são matriokas, também.


Até a próxima.

Da svidânia !